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Uma Investigação Científica Digna de Sherlock Holmes

quinta-feira, março 18th, 2010

Em 1960, 10.000 bebês nasceram horrivelmente defeituosos, sem pernas, sem braços, dedos surgiam ligados aos ombros. Foi um pânico geral. Era uma peste? Seria um novo vírus? A pronta mobilização da Ciência foi requerida pelos govêrnos, a qual descobriu rápidamente o culpado: uma simples pílula que as grávidas tomavam para amenizar os desconfortos da gravidez! Mas principalmente os estudantes podem aprender muito com êsse evento e até decidirem a serem cientistas se entenderem direitinho como é o trabalho dos cientistas nestes casos. Para evitar o jargão técnico, imaginei uma maneira de explicar a atividade científica através de uma história de mistério policial. É o seguinte: 

Certa feita, numa grande cidade, começou a aparecer pessoas horrivelmente mutiladas. Ainda estavam vivas quando eram encontradas, mas sem pernas e braços. A primeira suspeita caiu sôbre o chupa-cabra mas o prefeito não era supersticioso e tomou uma feliz providência: contratou o grande detective Sherlock Holmes para investigar o mistério. Ouvindo as vítimas ele concluiu que tratava-se de um ritual satânico, mas os criminosos, encapuzados, não deixavam pistas. Holmes identificou 18 tipos de religiões na cidade, mas eram tôdas ramificações das grandes religiões, organizadas, ordeiras. As vitimas relataram que eram embriagadas para o ritual com vinho, Holmes mandou analizar o vinho no sangue das vitimas e descobriu que havia apenas uma religião que usava aquela marca de vinho nas cerimônias. Para não citar nomes e ter meu cocuruto escalpelado pelos fanáticos desta religião vou chama-la de CPS49. Pode? Então é CPS49.

Holmes frequentou uma cerimonia na igreja, viu que era tudo limpo e pacífico então concluiu que deveria haver dentro daquela religião um grupo de fanáticos que atuava secretamente como uma seita fechada. Estudando o caso dia e noite como os cientistas da talidomida, Holmes descobriu que tôdas as vitimas tinham algo em comum: tôdas nasceram em Novembro. Porque? Bem, pensou Holmes, novembro é o signo do escorpião, estamos tratando com místicos, então a chave deve ser o signo do escorpião. Então Holmes fêz um levantamento nos cartórios da cidade sôbre todos os cidadãos vivos do signo escorpião, secretamente convocou igual numero de pessoas das outras religiões e pediu que vigiassem atentamente os escorpianos. Não deu outra: no dia seguinte um espia de Holmes deu o alarma que seu vigiado foi sequestrado, seguiram os criminosos até o local do ritual e prenderam todos. A cidade aliviada voltou à santa paz. Mas algo ainda intrigava Holmes: porque escorpianos? Interrogando os réus descobriu estupefato que êles nem tinham idéia que as vitimas eram de escorpião. Eles escolhiam como vitimas os ateus, porque acreditavam que os ateus eram os responsáveis por Deus estar mandando terremotos para o mundo, etc.  Acontece que as pessoas nascidas em novembro eram as mais propensas para o ateísmo (não dizem os astrólogos que os escorpianos são frios, céticos, calculistas?) talvez porque neste mês a lua esteja virada de costas para nós, sei lá. Holmes acertou, errando.

(Raios, porque não fazem um filme com essa história e me pagam um cachê? Tô vendendo o almoço para comprar a janta…). Mas agora vamos ver como essa história é parecida ao que fizeram os cientistas. 

Primeiro óbviamente interrogaram as mães das vitimas sôbre os remédios que tomaram na gravidez, e tôdas tinham algo em comum: tomaram talidomida. Quando a talidomida entrou primeiro no mercado em 1957, na Alemanha, foi aprovada pela medicina publica e considerada tão inofensiva que foi direto para o balcão a ser vendida sem receita médica. Assim como os govêrnos permitem as igrejas de religiões consideradas inofensivas. E a talidomida era uma droga muito eficiente em várias doenças, notadamente lepra e alguns casos de cancers. Portanto, assim como muitas pessoas precisam de uma religião, pessoas precisavam de talidomida. Havia mesmo tratamentos que se a talidomida fôsse proibida, pessoas poderiam morrer. O que fazer? Proibiram a venda sem receita média e como estavam entre a cruz e a espada, não podendo banir definitivamente e não podendo permitir, concluiram que a talidomida tinha ingredientes medicinais benéficos e maléficos, portanto, tinham que identificar os fanáticos da seita, digo, a substância malígna. Em 1960, biológos começaram a injetar talidomida em ratos de laboratório para causarem as deformações. Daqueles experimentos cientistas desenvolveram umas 30 teorias. Alguns achavam que a talidomida danificava nervos do embrião responsaveis pelo desenvolvimento dos membros; outros disseram que a droga leva células nos membros em desenvolvimento a cometerem suicídio; outros ainda suspeitavam que a droga impedia células de produzir proteínas. Mas infelizmente eles não podiam testar estas teorias, pois não conheciam  quais mecanismos produzem os membros, os quais tinham que ser a nivel de quimica molecular, mas nem mesmo sabiam quais moléculas. Tal como Sir Sherlock que não conhecia os agentes e o local dos rituais.

A talidomida por si mesma tornou a investigação mais complicada. Quando uma pessoa toma a pílula, enzimas começam a fraciona-la em pedaços menores, em substãncias simples, chamados “metabolites”. De fato, talidomida é separada em pelo menos 18 metabolites. As 18 religiões da cidade de Holmes tinham cada qual uma diferente estrutura e doutrina, e cada qual interagia com a sociedade com alguma sútil diferença: uma não assistia televisão, outra proibia meias curtas, outra não admitia que se pendurassem sutiãs nos varais… tinha até uma que treinavam seus cães de estimação de maneira que quando iam latir se viravam na direção da catedral. Cada um dos 18 metabolites tem estruturas químicas diferenciadas entre si e cada qual interage com as células de diferente maneira. Isto desanimava as investigações.

A complexidade da talidomida e o desconhecimento de como o organismo produz os membros atrasou a investigação por 40 anos e só em 2006 uma descoberta reanimou os cientistas. O Dr. William D. Figg do National Cancer Institute mais o Dr. Neil Vangerson, biólogo da Universidade de Aberdeen, na Escócia, experimentaram inocular apenas um metabolite em cada embrião de cobaia e descobriram que apenas um deles produziam os aleijados. Era o metabolite conhecido como CPS49. Em apenas alguns minutos após ser injetado, o CPS49 começava a matar as veias do sangue que estavam se desenvolvendo no local onde os membros seriam produzidos. Mas como, e porque as veias? Para atuar daquela maneira os metabolites tem que se atracarem num local e a um determinado tipo de moléculas do embrião. Mas quais?

Procurando a molécula o Dr Hiroshi Handa do Tokyo Institute of Technology foi aos cartórios da cidade e descobriu o signo do escorpião… raios, o que estou dizendo?… o Dr. Hiroshi lançou-se a inumeros experimentos até que enfim, encontrou-a: é uma proteína conhecida como “celebron”. Estava identificada o tipo comum das vítimas. Como Holmes ficou intrigado com o fato das vitimas serem de escorpião, os cientistas tambem foram surpreendidos: até aquela data ninguém sabia que o celebron tinha atuação na formação dos membros, nem mesmo se sabia o que esse celebron faz. O que fazem os escorpianos que desgosta os fanáticos dentro de uma religião? O que faz essa proteína que desencadeia a furia do CPS49, um metabolite maligno dentro da talidomida?

Bem, hoje sabemos que a talidomida inibe a proteína celebron que desempenha função indispensavel no desenvolvimento dos membros do nosso corpo. Ainda não entendemos os comandos e suas fontes no organismo que produzem estas maravilhas que são nossos braços e pernas, mas nos laboratórios a batalha contra a ignorância continua e quando o descobrir-mos, nossos herdeiros não nascerão mais aleijados e terão membros perfeitos. Eu particularmente acho que se os pesquisadores tomassem conhecimento – mesmo que fôsse apenas a titulo de curiosidade – das fórmulas da Matriz, que são os softwares-comando de instruções que a Natureza aplica para produzir a matéria e organiza-la em estruturas, arquiteturas, e sistemas naturais cada vez mais evoluídos, de acordo com a Teoria da Matriz/DNA, as respostas seriam encontradas bem mais rápido. Por enquanto o que vale é que a facção criminosa dentro da talidomida foi encontrada, esse maligno CPS49 pode ser retirado da talidomida para ela continue a curar outros doentes sem efeitos colaterais, o pesadelo das mães grávidas terminou e a Humanidade pode voltar a dormir em paz. Como fêz Sherlock: identificou nas vitimas o celebron, chegou aos fanaticos da seita CPS49, retirou-os do convivio com a sociedade, manteve a religião, que sendo placebo ou não conforta seus fiéis. E se a cidade não tivesse Holmes? E se nós não tivéssemos a Ciência?  

(Obs: Êste texto foi inspirado pelo artigo “Listening to Thalidomide: From terrible side effects, lessons on how limbs form”, por Carl Zimmer, do New York Times – Science Times – de 16/03/2010 )