Paradigma do Pensamento Sistemico: Artigo Favoravel

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Luís Miguel Luzio dos Santos

Conexões invisíveis

Só conseguiremos reverter a atual crise civilizatória se mudarmos o paradigma de conhecimento

 Desde o início da vida humana, há aproximadamente quatro milhões de anos, a nossa evolução como espécie sempre esteve condicionada à capacidade e qualidade dos relacionamentos que conseguimos estabelecer com nossos semelhantes e com o meio que nos rodeia. Nossa espécie nunca teve na força física ou mesmo no número de indivíduos o seu ponto forte, mas, antes, notabilizou-se pela capacidade de se organizar em grupos e de forma cooperativa desenvolver soluções para superar as adversidades e garantir a sobrevivência ao longo do tempo. Contudo, nos últimos tempos, parece termos nos afastado desse modelo ao privilegiar o autointeresse e o isolamento de cada um em relação ao bem coletivo.
Como alerta Fritjof Capra, ao se procurar compreender as multicrises que afligem o nosso tempo – ética, ambiental, social, econômica – constata-se que estamos, antes de tudo, diante de uma crise de percepção, em que o paradigma clássico – cartesiano-newtoniano – que continua a nortear a racionalidade ocidental, baseado na divisão, no isolamento das partes e na hiper-segmentação como forma de reduzir a complexidade, deixou de ser a solução para se tornar um problema. 

Se por um lado, a divisão da realidade em partes cada vez menores nos fez avançar no aprofundamento dos conhecimentos, o seu dogmatismo criou uma cegueira em relação ao todo e aos desdobramentos de cada ação ao longo do tempo e do espaço, resultando numa grave crise de responsabilidades em que a culpa tende a ser sempre transferida para os outros.

Um exemplo sintomático da incoerência de nossa perspectiva de conhecimento tem sido dramaticamente sentido no Brasil nos últimos anos. Ao se ampliarem indiscriminadamente as zonas de pastagem, nas últimas décadas, grande parte das vezes às custas do desmatamento intensivo de florestas através de grilagem e outros métodos ilegais, provocou-se um agravamento da questão climática, nomeadamente com a redução na quantidade de chuvas em boa parte do país, o que compromete o abastecimento de muitas cidades, reduz a produção de energia que, por consequência, leva ao encarecimento de toda a cadeia produtiva, alimentando a inflação que, por sua vez, tenta ser combatida com o aumento progressivo das taxas de juros, comprometendo o crescimento econômico e ameaçando as conquistas sociais. Além do mais, a expansão ilimitada de áreas de pastagem para a produção de gado vem na contramão das pesquisas que atestam os malefícios para a saúde humana de uma dieta alimentar com excesso de carne vermelha. Estas são apenas algumas das infinitas relações que se estabelecem, impossíveis de serem entendidas na sua totalidade, mas que qualquer esforço no sentido de ampliar a percepção da realidade enriquece as possibilidades de intervenção.

O nosso pensamento mutilado conduz a ações mutilantes, ninguém se sente responsável pelo que não é imediato e não o impacta diretamente, o que demonstra uma profunda miopia diante do contexto que nos cerca. Só conseguiremos reverter a atual crise civilizatória se mudarmos o paradigma de conhecimento, da centralidade atribuída aos elementos separados e assumirmos as relações como referência, em vez de elementos independentes, privilegiar a ideia de teia, considerando que cada fio está imbricado numa cadeia interminável de conexões interdependentes, em que o que afeta qualquer uma das partes inevitavelmente gera impactos sobre as demais. Tudo o que existe, galáxias, estrelas, planetas, seres orgânicos e inorgânicos, até as partículas mais elementares que compõem a matéria participam de um conjunto de inter-retro-relações sem fim e só assim pode-se assegurar as condições propícias ao desenvolvimento da vida nas suas diferentes formas, é bom lembrar: não existimos, mas coexistimos.

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