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Porque Primeiro Amo a Humanidade acima de Deus, e Tudo o Mais.

terça-feira, junho 2nd, 2009

Esta cena e’ muito importante:

Policarpo e’ o nome de um pequeno lagarto, que na Amazonia chamamos de “calandro”. Policarpo procurou uma rocha alta no meio da selva, subiu na mais alta pedra e esta’ emitindo silvos, como se chamasse alguem. Policarpo e’ um calandro muito novo, quase um recem-nascido. Ele corre mil riscos fazendo aquilo pois ha’ milhares de especies de predadores que podem ouvi-lo e subir a pedra para come-lo, desde cobras, urubus, e ate’ mesmo lagartos de sua propria especie podem devora-lo. Mas ele continua chamando, atento a todos os ruidos `a volta, o farfalhar de galhos sendo afastados por animais se aproximando, outros rastejando la’ embaixo, passaros passando rente… E ele continua ali, como se desesperado, chamando… chamando nao se sabe o que, nem ele mesmo sabe o que ou quem ele chama.

Nao muito longe dali, Ceci, um indio selvagem dos Jamanxins, esta’ sentado numa pedra alta, tambem imovel assistindo tudo ao redor. Como eu muitas vezes fiz o mesmo que Ceci esta’ fazendo, e o conheco, posso mentalmente adentrar seus pensamentos e mais ou menos sentir o que lhe vai pela cabeca. Na verdade, o verdadeiro Ceci nao e’ apenas aquele corpo fisico observavel e percebido pelos nossos sentidos. Ceci e’ algo mais e esse algo mais tambem esta’ ali na rocha fazendo o mesmo que Policarpo: chamando alguem ou algo, ele nem sabe quem ou o que, e esta’ muito perturbado. Dentro da cabeca de Ceci existe um cerebro, denso em materia, que, obedecendo `a evolucao, fez o papel de um ovo e pariu, num parto inedito em que ocorreu importante mutacao, dando a luz a uma nova especie, um novo tipo de sistema natural, ao qual por enquanto vamos chamando de “auto-consciencia”. Quem emite sinais apelativos chamando e’ esse novo sistema, enquanto seu corpo observavel nao emite som ou sinal algum.

Policarpo, assim como todos os repteis e todos os seres vivos ancestrais dele, nasceu de um ovo atirado ao leu e abandonado a` propria sorte. Seu pai nao sabe que o fez, sua mae pariu enquanto caminhava e nem voltou-se para observar o ovo que deixou no caminho. Policarpo nao tem espelho, nao tem menor ideia de como e’ seu corpo, por isso nao pode ter certeza em identificar-se em outros calandros que sao de sua propria especie. Ele chama porque algo no seu instinto supoe que ele nao existe sozinho, e ele precisa muito de algo em que apoiar sua existencia, totalmente sem sentido.

Ceci, enquanto auto-consciencia, e muito mais evoluido que Policarpo, sabe que todo efeito tem ao menos uma causa, que todos os seres existem porque foram feitos de outros seres, `a sua imagem e semelhanca, descontando algumas pequenas mudancas possiveis devido `as mutacoes, principalmente quando um parto se da’ num novo e inedito terreno. E Ceci tambem necessita mortalmente de algo em que apoiar sua existencia, vislumbrar um sentido para sua existencia. Mas tambem Ceci, enquanto “auto-consciencia”, nao tem espelhos adequados para ver seu corpo, nao pode ver e nunca viu algum semelhante, enfim, ela nao tem a menor ideia nem de que substancia e’ constituido seu corpo. Por isso ela chama, porque ela acredita, e com logica, que tem de existir aquele, aquela, ou aquilo que a pariu, usando o cerebro humano como ninho e terreno.

Ceci tem vasculhado todo seu “universo” `a procura de seus pais, e como nao os encontrou na limitada selva ao redor, esta’ fortemente suspeitando que eles se encontram em algum lugar no imenso espaco chamado “ceu” que se extende ao infinito acima de sua cabeca. E eu, sentado tambem naquela pedra, mas diferentemente de Ceci, conhecedor da civilizacao alem-selva, das fotos do Hubble, dos modelos astronomicos, e das teorias cosmologicas, extendi minha procura por todo o Universo, e nao encontrei meus pais nos ceus que Ceci supoe eles estejam. A logica do conhecimento civilizado me conduz a pensar que tambem este Universo e’ uma especie de ovo, cosmico, que aqui esteja ocorrendo um processo embrionario, e que, assim como um ser humano, desde o momento inicial do Big-Bang em sua fecundacao, vem repetindo todas as formas anteriores, desde a morula imitando a nebulosa primordial de atomos, a blastula imitando a divisao em galaxias, o feto imitando peixes e amfibios, o embriao imitando os mamiferos quadrupedes, tambem o sistema natural que foi parido no Big Bang e vem evoluindo a 13,7 bilhoes de anos, esteja imitando as formas pelas quais passou aquele ou aquilo que fecundou este ovo universal. Se realmente e’ assim – e esta e’ a hipotese mais provavel que minha mente pode assimilar, por enquanto – aquele ser, ou aquele sistema natural, que gerou este Universo, tem que ter, como uma de suas formas, senao a ultima, a forma de auto-consciencia. E inteligente. Eis meus pais, e os pais que aquele algo mais dentro de Ceci esta’ procurando e chamando enquanto ele se encontra quase imovel sentado naquela rocha.

Mas nem nosso pai, nem nossa mae, e mesmo nem um irmao, atende nosso chamado, nao aparecem, nao se mostram. Sabemos que em todo ciclo macro-evolucionario, existe uma primeira fase em que o novo ser e’ parido como ovo fora, abandonado `a propria sorte, mas por uma curiosa particularidade dos macros sistemas, esse ovo nao  sai do corpo, e numa segunda fase, ele e’ mantido dentro, cultivado, cuidado, protegido, alimentado, nao apenas ate’ que nasca, mas alem, por toda sua vida. Basta olhar esse macro ciclo no corpo de LUCA para perceber isto. Tambem a biosfera, ou a especie “sistema biologico” neste planeta esta’ repetindo este processo, enquanto as suas primeiras formas pareciam ter parido de ovos fora, mas na realidade, nunca deixaram este sistema biologico denominado biosfera, estavam dentro.

Entao, como auto-consciencia, somos recem nascidos, recem paridos, estamos apenas agora abrindo os olhos conscientes e descobrindo o mundo, talvez ainda descobrindo apenas o interior do utero alem do ovo, dentro de algum ser maior que o Univerao, mas sentimos, como consciencia que estamos sozinhos, como abandonados, pois nossos pais nao dao as caras, nao temos como ver nossa imagem, nao temos com quem falar cara a cara, olhos nos olhos. Muito menos temos carinho, afeto, que satisfaria aquela necessidade de apoiar nossa existencia em algo firme e solido, para, nem que seja ter a esperanca de que a morte do corpo nao sera’ o nosso fim para sempre.

              Algumas consciencias dentro de seres humanos resolveram forcar o raciocinio para idealizar como sao seus corpos e de seus pais, tentam ate’ adivinhar os desejos e pensamentos destes pais, e mais, lhes dao um nome: Deus. Eu ainda nao consigo fazer isso. Pois, apesar de saber e entender o processo de duas fases dos ovos fora e ovos dentro da macro-evolucao, ou melhor, da macro-reproducao, de saber que isso ocorreu com todos os nossos antepassados e continua a ocorrer na biosfera, eu nao consigo aceitar que estou abandonado na fase dos ovos fora. Nao consigo porque – eu ate’ posso aceitar e sou obrigado a aceitar que isto occorreu com todos os sistemas produzidos ate’ agora, mas eles todos nao tinham “inteligencia”. Sua mente ainda sempre esteve como a do feto ou embriao humano, adormecida, na fase larvaria, por isso damos-lhe um desconto. Mas… que o criador do Universo, aquele sistema que esteja la fora, o qual possui esta forma que agora esta surgindo aqui, a da auto-consciencia, que inevitalmente tem de ser inteligente… abandone seus filhos `a propria sorte, que nao volte no seu caminhar nem mesmo para vir bater um papo conosco e nos ensinar algumas coisas para ter-mos uma melhor existencia… Isso nao consigo engolir, isso indica que tem algo errado em toda essa cosmologia, isso ameaca derrubar tudo em que acredito como se tudo nao passe de um castelo de cartas. Os humanos tem inteligencia, por isso cuidam dos filhos a todo momento e acima de qualquer sacrificio, jamais os abandona.  No entanto fomos paridos por uma inteligencia que nos abandonou e nao aparece…

Aqui me perco totalmente nesta horrivel incerteza. Porem, jamais vou deixar de voltar e sentar ao lado de Ceci e juntos chorar-mos nosso infortunio de orfaos, e continuar chamando… chamando… Vamos morrer chamando, mas esta esperanca vai continuar nas proximas geracoes, ao infinito.

Existe sim, uma situacao em que pais auto-conscientes e inteligentes parecem ter abandonado o filho, parecem nao dar a minima atencao ao filho, parecem nao se mostrarem e nao se comicarem com o filho. E esta situacao esta’ bem `as nossa vistas, vemo-la todos os dias. E’ quando uma mulher esta’ gravida. Claro que ela ama o ser que traz no ventre, mas qual a relacao entre ela e ele? Mesmo que ele esteja super-necessitado, que as coisas vao lhe correndo mal, ela nada pode fazer, ela nem sequer pode sabe-lo. E ela e’ um ser inteligente. O que ela pode fazer e faz, e’ tomar os cuidados sobre o que ela sabe para que ele se desenvolva da melhor maneira possivel. Asim esta’ ok: posso entender porque meus pais nao aprecem na rocha nem nas noites escuras quando os chamo.

Isto significaria que nos ainda nao nascemos. Significaria que nem mesmo nosso corpo carnal, nem essa nossa cabeca oval, e’ o ovo em que estamos. O ovo seria todo o Universo material observavel. mas significaria muito mais. Olhamos a nossa volta e sabemos que existem nossos irmaos dentro de outras cabecas ovais. Isso significaria que nosso corpo carnal sao uma especie de bolsa ou bolha, que estamos sendo gerados numa ninhada, de seis bilhoes de gemeos. Porem significaria muito mais ainda. Provavelmente existam trilhoes de outras consciencias dentro de corpos vivos espalhados por milhoes de planetas em milhares de galaxias… todos nossos irmaos gemeos! Raios… entao que tamanho sera’ essa “Mae-Deusa extra-universal”, que gera ninhadas de trilhoes…!?  

Por enquanto, percebo que dentro de todos os outros seres humanos, mas ainda encerrados numa especie de jaula, sem que possamos nos tocar afetivamente, sem que possamos conversar  sinceramente, de especie para especie, de irmaos para irmaos, pelos ruidos e desvios das imagens `a volta, pelas  espessas paredes de nossas jaulas que sao estas caixas osseas cranianas, percebo ainda que ali esta’ a unica coisa que pode me dar um sentido para a existencia: meus semelhantes. Eu fui menor abandonado, restou-me uma irma, e na falta dos pais, tivemos que crescer cuidando-nos mutuamente. Agora projeto esta situacao a nivel de toda humanidade: ela e’ minha irma, o sentido da existencia e’ crescermos e nos cuidar mutuamente. Como nao posso ter certeza de que a minha cosmologia esta’ certa, que o que penso ser macro-evolucao esteja realmente correto, que nao posso ter certeza que sou ovo botado fora, que nao posso ter certeza da existencia de pais auto-conscientes, e como nao posso entender pais inteligentes abandonando os filhos… nao posso amar “Deus” acima do que tenho em maos, com certeza: meus semelhantes em especie dentro de cada cabeca de cada ser humano. E nao posso entender tambem aqueles que dizem amar tais pais ausentes acima de tais irmaos presentes. Por isso nao sou religioso. E sinto muito que meus irmaos religiosos nao me considerem como os considero. Mas sao livres para acreditarem no que quiserem acreditar, talvez eles estejam certos e eu o errado… Eles nunca passaram pela experiencia que passei na selva. Desviado do grupo numa expedicao, fiquei sozinho e perdido, quando a malaria me pegou e depois de oito ou nove dias, ja insconciente, voltou o indio nativo que era guia do grupo, me encontrou e retirou-me da selva, salvando-me a vida. Um ser humano. O mais simples e pobre e inculto entre todos os seres humanos, mas com um valor maior que todos os deuses juntos. Nao foi Deus que ali foi me socorrer. Por isso fiz minha escolha.

Mas, imaginemos que uma mae humana tivesse vontade de aparecer na frente do feto que ela traz no ventre, comunicar-se com ele, acaricia-lo, mostrar-se a ele em toda forma de seu corpo. Impossivel nao e’? Um ser humano na fase intra-uterino muda de forma talvez umas quinze vezes, repetindo todas as formas de seus ancestrais, de atomos a especie humana final. Agora imagine se isto esta’ ocorrendo a nivel universal. Quantas formas seriam necessarias para alcancar a ultima forma de um ser extra-universal? Vinte, trinta? Em que posicao estaria a forma da auto-consciencia? Se nossos pais extra-universais tem uma forma superior a da auto-consciencia, como poderia-mos identifica-los como nossos pais? Poderiam passear na nossa frente, como passeiam cobras e lagartos, mas como fetos ainda, nao saberiamos quem sao nossos pais finais. E quanto `a comunicacao? Com formas superiores, nossos pais deveriam se comunicarem com outras especies de sinais, nao falariam nosso idioma, e nao conseguiriamos entende-los. Pensando bem, a cosmologia macro-evolutiva dos ovos fora e ovos dentro comporta perfeitamente a possibilidade de que tenhamos deuses ou pais inteligentes que “parecem” nos ter abandonado. Talvez, eu nao esteja tao perdido cosmologicamente falando.  

Mesmo assim minha escolha nao e’ definitiva. Nao sou como todo bebe que sempre chora chamando porque quer pedir alguma e nunca pensa em saber se os pais estao precisando de alguma coisa. Eu nao chamo apenas para pedir, antes, eu chamo para oferecer. Em que situacao estara’ meus pais ausentes? Estarao precisando de mim? Talvez deus precise mais de mim que eu dele? Uma mae humana, que estivesse sob a mais atroz tortura, diria a alguem que aparecesse para ajudar: ” Ajude antes a meus filhos, apenas depois, se restar algo, venha me ajudar!” Portanto, se existem meus pais de consciencia, se existe o que chamam “Deus”, deve dizer a mim quando me ofereco para ajudar: ” Ajude antes a meus filhos. Podes ama-los mais que a mim. Apenas depois que estiverem salvos e bem cuidados, se restar algo de seu tempo e de seu amor, dedique-o a mim.”

Por isso fiz minha escolha.