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A Suprema busca existencial: ” Que é… EU ?!”

Wednesday, January 13th, 2021

Nesta prisão por esta pandemia, quando às vezes não temos o que fazer do nosso tempo”, eu resolvi experimentar, inventar uma meditação diferente de todas as que ensinam. E para minha surpresa esta meditação me levou a um mundo jamais imaginado, que, tenho certeza, vai ser relembrada em muitas futuras ocasiões. Eu daria tudo para ver outro humano tentando copiar essa experiência para ver onde ele vai dar… Se alguém se voluntariar, vá para a cama, apague a luz, deite relaxado, feche os olhos e comece, sentindo isso… :

Escuridão total à minha volta. Tudo negro, à frente, aos lados, acima, abaixo, atrás… sou cego. E não sinto mais nada…

O que é este cego, o que sou EU?

Uma palavra soa em mim: sensação. Eu sou uma sensação. Eu sinto. Sinto existir, ser. Ser… sou… alguma coisa, que não consigo entender. Então… s e n t i m e n t o… Sou uma sensação, uma coisa que sente sentimentos.

Sinto que estou pulsando. Isso vem de uma respiração que está acontecendo. Estou sentindo uma coisa, ligada a mim, que está respirando, me alimentando com energia, ar. Sinto que esta outra coisa está sentindo pressão de outra coisa, um peso, vindo da escuridão. Gravidade! Então tem mais coisas na escuridão…

Mas continuo cego, às escuras. E pior: sem poder me mover, entrar nesta escuridão, sair daqui, me mover. Mas como? Se não me sinto como algo real, nem vejo a minha substancia que me faz existir, como algo, como um corpo?

Estou me inflando, me energizando ou usando a energia que estou recebendo, tendo uma vontade, de apalpar a escuridão, de me mover na direção da escuridão. Mas como, se não tenho mãos para apalpar nada, nem pernas para me mover?

Epa!… Epa!!!… Apareceu uma luz! Luz! Um … milagre? As trevas sumiram, a luz me mostra o que existe, apareceram algumas coisas, onde era total escuridão!

Apareceu um lugar, um espaço, um mundo, cheio de coisas. Coisas que tem substancia, são feitas de uma substancia. Vou dar o nome a ela de “matéria”.

E agora? Que faço? Não posso me mover, tocar essas coisas, fico aqui parado só observando coisas?

Todas estas coisas estão cercadas por uma das formas dessa matéria, vou dar-lhe outro nome: “paredes”. A luz não vai além das paredes. Não mostra o que existe além delas, se é que existe mais alguma coisa.

Bem,… se tenho que ficar parado observando, vou me entreter dando nomes a estas coisas, nem sei para que?… “isso vai se chamar cama” , “isso será forro”, “mesa”, “estante”, “roupa”… e outro objeto aqui… muito perto de mim… vai se chamar “corpo”…”corpo de carne”… Tudo inerte, nada se move, de onde vieram estas coisas, o que as produziu, para que estas coisas estão aqui?!

Se eu não posso me mover na direção delas e elas não se movem na minha direção?! Não sinto nenhuma conexão entre mim e estas coisas, sou como uma nuvem, uma fumaça, no meio destas coisas densas…

Bem, deixa-me organizar-me para tentar entender o que aconteceu, o que está acontecendo. Eu era uma percepção de existência, no meio da escuridão, estática. Aí senti que recebia algo, de uma pulsação: agora dei nome às coisas que estava recebendo: ar, energia, sangue. Havia um movimento ao redor de “eu”, existindo. Então me surgiu uma vontade, que reuniu aquela energia, e fez aparecer uma luz ao redor. Aí… não… mas espera aí… antes da luz aparecer eu senti que houve um movimento fora de mim. E foi na minha frente… e agora percebo… foi no corpo de carne perto de mim. Algum ponto neste corpo de carne, ao qual vou dar o nome de “janela”. Houve um movimento na janela, foi quando a luz apareceu. A minha vontade move janelas?! E movimento nestas janelas faz luz aparecer? E luz faz um mundo de matéria aparecer?! Que absurdo! Um milagre atrás do outro, sem um milagroso, fazendo aparecer coisas do nada, no nada?! Claro… isso tudo só pode ser uma ilusão em relação ao “eu” que existo e como me sinto ser.

Então a existência consiste em constatar a existência deste mundo feito de milagres? E… só isso?

Milagres, mundo de ilusões, isto o que essa luz me mostra? Está bem, vamos entrar no jogo, ver onde isso vai dar…

Estou cansado de ficar observando isso, tudo estático, eu estático, acho que vou me apagar. Melhor assim, deixar de ser essa existência absurda, incomoda, indesejável, insustentável, assistindo um mundo irreal… não tocando e nem sendo tocado por ele…

Estou me apagando? Estou me desfazendo dessa coisa de ser existente? Voltando para o nada absoluto, para ser nada?

Parece que meio sim e meio não. Porque algo novo está acontecendo comigo, está me surgindo uma capacidade de ver mais coisas, mas sem aquela luz, pois as janelas estão fechadas… será outra janela sendo aberta? Vou dar o nome a esta sensação de “sonho”. Então estou sonhando.

E estou vendo um baby recém-nascido. Estou dentro deste baby, sinto tudo o que ele sente. Um desconforto que me faz chorar, cegueira que me cerca tudo na escuridão. Por enquanto o baby é igual ao que sou antes do sonho. Tudo igual ao que sinto que sou. Apenas entrei em outro mundo, o qual também sou um observador esfumaçado mas dentro de um corpo de um baby recém nascendo. Nascendo num outro mundo, onde tem outra luz, outras coisas… mas uma grande novidade: se tento me desligar do que estou sentindo, percebo movimentos na escuridão, tem coisas se movendo, percebo pressões no corpo do baby…

Êpa!… me foi aberta outra janela?! A escuridão em volta do baby está se desanuviando? Estou agora vendo através de janelas do corpo do baby? Este sonho está ficando interessante!

Sim, e tem coisas aqui, corpos, que se movem, tocam o baby… não sei como, mas sinto… Que corpos interessantes! Tem tentáculos, se torcem e contorcem, se viram, tem duas janelas… e tem um buraco embaixo das janelas que se abre e mostra outras coisas lá dentro… emitindo mais uma novidade que aparece… vou dar os nomes de “som”, “ruídos”, “vozes”… Este mundo tem som, ruídos… muito interessante! O baby está se perguntando de onde veio tudo isso? Do nada? Das trevas? Ou existe algo mais, muito mais, do que percebo, que produz estas coisas todas?

Ai…, ai… que sensação ruim… de onde vem? De baixo… Estou vendo: os tentáculos estão mexendo numa parte do corpo do baby, vou dar o nome de “pés”. Mas o baby não tem consciência do seu corpo, apenas está sentindo, também não sabe de onde e porque vem a sensação incomoda… O baby sente uma vontade de parar aquela sensação, a vontade reúne energias, e parte do corpo do baby se encolhe, saindo fora do alcance dos tentáculos da coisa movente com duas janelas.

Uau! O baby percebe que tem o poder para fazer isso! Mover matéria que está longe dele! Ele tenta repetir olhando a matéria da cama mas não consegue mover nada, nem o travesseiro. Então ele tenta mover partes do corpo de carne e… sim… ele consegue… aqueles pés, aquelas mãos, estão sob seu poder, são dele!. E o baby passa horas se curvando para as mãos pegarem os pés, mexer neles, e ri muito com isso. Que baby boboca! Se divertindo com os próprios pés! Que sonho interessante.

Quando penso nisso, lembro que estou tendo um sonho, de repente percebo que…

Mas… espera aí… eu estou vendo um corpo de carne perto de mim assim como o baby viu. E o baby moveu o corpo, se moveu a si mesmo! Então será que se eu quiser movo também este corpo e vou conseguir me mover no meio desta matéria? Apalpar coisas?

Sim, o corpo de carne está se movendo… e sob o meu comando, minhas ordens, minha vontade! Eu existo!!! Eu sou!!!

Sou de fato um baby boboca, mas não interessa, descobri que sou algo real!

Ou melhor: sou igual, sou parte das coisas do mundo que se escondia nas trevas, não sou de matéria, mas faço parte do mundo feito de matéria!

Mas não tenho, não sou matéria igual a tudo que está neste mundo. Não consigo sentir de qual substancia é feita meu corpo. Nem janelas próprias de ver eu tenho, preciso de janelas do corpo carnal, para através delas, ver uma luz e um mundo…

Entendi tudo! Eu sou, eu existo, mas eu sou um embrião de um baby. Cego ainda. Preso, prisioneiro dentro de uma cela, uma caixa craniana. Estou sendo nutrido, cuidado, recursos abstratos imateriais devem estar vindo de fora, não sei de onde, como, mas deve ser assim como o cérebro, esta placenta, está recebendo nutrição vindo de fora. Estou me mantendo e sendo mantido para ficar inativo, cego, dentro da casca óssea de um ovo chamada crânio e no meio de uma placenta chamada cérebro. Mas não inativo total, parece que a minha disposição existem um fios, uns cordéis, posso mover extensões desse corpo de carne e osso, como a uma marionete, posso “chutar a barriga do mundo externo”.

Embrião! Embrião ou feto? Preso e na escuridão, ignorante da sua substancia, e até da forma de seu corpo, se é que tem um corpo abstrato. Como um holograma? Se ignoram o mundo relacionado á sua substancia física, o mundo feito com a mesma substancia que eles são feitos… estão fora do mundo que estão sentindo, em que estão dentro… Assim descrevo bem o que sou, o que é este “eu”.

Mas então o que foi tudo isso de uma luz aparecer, um mundo material aparecer, eu me movendo e sendo movido? Um feto, um embrião não tem nada disso. Raios… o que está acontecendo comigo?

Já sei!… Descobri…!

Sou um feto que está sendo nutrido, cuidado, por recursos vindo do mundo igual a minha substancia, o qual ignoro totalmente, como todos os fetos. Mas como um feto, estou esperando, e sonhando. Nos meus sonhos estou dentro de um corpo que funciona como um carro, um veiculo. Sou um motorista cego que posso mover minhas mãos, apertar um botão no painel desse veículo, ele acende os faróis, a minha cegueira e a escuridão desaparecem, e vejo coisas na frente, cercadas por paredes, estou dentro de uma grande garagem. Não sou eu quem vê, e sim o carro, mas consigo me “encarnar” no carro, sentir o que o carro sente, e assim consigo ver o que o carro vê quando acende seus faróis… Interessante!

No sonho me vejo com mais vontades, as quais movem coisas do carro, o carro se move dentro da grande garagem, para a frente, para traz. Vejo uma base de abastecimento para o carro, dirijo o carro, abasteço-o. Parece que cresci, deixei de ser um feto e sou um adulto dentro de casa, me abastecendo na geladeira, a garagem é minha casa.

Agora volto do sonho, me desligo do carro, sou o “eu abstrato” novamente. As dadivas que estou recebendo não sei de onde vem, na minha escuridão sem olhos, mas essa dadiva me incentiva a vontade, a compreensão, de que devo fazer dadivas, e assim repassa-las ao corpo de carne. Aplicar minha inteligência para melhor abastece-lo, cuidar e protege-lo contra acidentes, etc.

Como o “eu feto” nada mais pode fazer a não ser esperar… esperar o que o tempo vai fazer comigo, esperar se vou receber a visita das coisas ocultas que estão cuidando de mim e fornecendo a energia que transformo em minhas vontades… vou me entretendo cuidando deste corpo, e nisto vou aprendendo um monte de coisas do mundo material.

Espera ai… A única vontade que estou conseguindo expressar e obter resultado é a vontade desse sonhar… Na verdade ultima sou o “eu feto”, que não está dirigindo carro nenhum, nem um corpo carnal… fetos não podem se moverem. nem podem ver luz, e nem um mundo revelado por alguma luz.

Então o que está acontecendo?!

Enquanto espera, o feto sonha. Um sonho onde ele dirige um corpo carnal, complexo, como se fosse um robot, ainda meio desengonçado, de geração atrasada, que não obedece direito os comandos do baby sonhando, mas vale estar sonhando este sonho, isso entretém o baby, digo, o feto, enquanto espera. Neste sonho eu me vejo e me sinto um agente se movendo e atuando sobre o mundo material. O sonho parece prazer sadomasoquista pois não tenho controle total nem sobre o meu computador-robot nem sobre o mundo material externo… assisto muitas muitas coisas ferindo o corpo do baby sem alcançarem o eu que sonha, mas prefiro assim, sofrendo um pouco, sentindo as dores que o computador-robot sente, prefiro esta forma de gastar meu tempo de espera. Não tenho melhor alternativa.

O que me satisfaz nesta existência é que assim aprendi que babyes nascem, para um mundo externo, uma nova luz, feito com a substancia que eles são feitos. Então sei que minha hora de nascer vai chegar, e vou nascer para o mundo feito com a substancia de que sou feito. Deve ser outro tipo de luz, outra dimensão. O mundo dos fetos é temporário, é a ilusão de que aquela limitada prisão seja toda a realidade, este mundo ilusório é sempre descartado como a placenta… quando então vemos a luz no fim do túnel…

FIM

O interessante no arremate final dessa meditação foi constatar que nela tudo bateu com os milhares de relatos de pessoas que tiveram experiências de quase morte. Sentem-se apenas como consciência, flutuam no espaço, veem uma luz num túnel, etc… e voltam falando que esse mundo é ilusório…