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A Tragedia Humana e’ uma questao de “Ovos dentro ou Ovos Fora”

domingo, abril 5th, 2009

Este pensamento (acho que uma grande descoberta) me ocorreu assistindo o filme “Hotel Ruanda”. Todos sabemos da grande diferenca entre repteis e mamiferos: os primeiros botam os ovos fora deixando a prole abandonada ao acaso, os outros nutrem e protegem a prole ate’ esta amadurecer.  E depois descobrimos estupefatos que a transformacao de repteis para mamiferos aconteceu porque foi programado geneticamente, pois no corpo de LUCA existe numa primeira fase, o abandono dos ovos, e numa segunda, a manutencao dos ovos dentro. Pois com a mais recente invencao da Natureza – a mente humana ou autoconsciencia ainda fetal e dentro de um ovo craniano – esta’ acontecendo o mesmo universal roteiro. Somos seis bilhoes de embrioes mentais mas filhos de uma especie primitiva ainda da primeira onda, como eram os repteis e todos os que os antecederam, assim somos seis bilhoes de ovos botados fora.

Eu ja tinha algumas vezes tocado nestas reflexoes mas nunca tinha terminado-as. A coisa toda explodiu numa cena do filme. Os soldados da ONU retiram apenas os brancos do hotel e partem, ficando para traz uma multidao de africanos que se sabia seria esquartejada ate’ a morte. O pai agarrado `a mae e aos filhos, com os olhos arregalados prescrutando o mundo ao redor procurando uma forca, a forca que deveria (por tudo que e’ mais racional neste mundo)  existir, a forca do proposito que tem criado o mundo, feito-o desenvolver-se e chegar ate ao estagio de criar a inteligencia, que, portanto, tem derrotado todos os principios de eventos que poderiam ter destruido tudo.  O pai, seus filhos, a humanidade, e o mundo que os suporta, existe desde toda a erternidade, e nao seria possivel que um bando de facinoras enlouquecidos pudesse por um fim `a Historia, a qual se escreveu porque foi suportada por um proposito. E o prosposito tem que estar firmado, apoiado, numa forca.

Mas onde esta ela que nao vem? Claro que ela tem elementos da logica e racionalidade como nos temos, portanto ela deve saber, que os facinoras estao vindo e trazendo a chama da morte, entao porque ela nao aparece? Diz o ditado que a forca ajuda a quem se ajuda, entao o pai levanta-se e se move, ele deve fazer por se ajudar, procurar a saida.

Quantas infinitas vezes isto aconteceu com tantos quantos humanos? Os cristaos na arena de Nero, mulheres, velhos, criancas, as jaulas sendo trazidas, os leoes rosnando… e todos os telespectadores do filme, neste momento, elevam a mente para cima e ao redor, em busca da forca que deveria aparecer ja’  e evitar o que as simples forcas brutas do mundo estao convergindo para fazer acontecer.  Ninguem, mas ninguem mesmo acredita que aquilo vai acontecer. Nao e’ possivel! Existe proposito, existe algum fundamento na existencia, o mundo veio do nada e a evolucao que houve e fez as coisas do agora… nao pode haver meros acidentes ao acaso da liberdade de acao destas forcas brutas e tao bestiais como sao feras, leoes, os facinoras de Ruanda.

Mas… as forcas brutas avancam, o racional nao aparece porque nao existe, as jaulas sao abertas e os leoes devoram a todos, pais e filhotes. Se os pais nao abandonaram os filhotes e estao ali juntos, eles manteram os ovos dentro e nutriram, mas se sao igualmente impotentes, e’ porque ambos, pais e filhos, estao dentro de um contexto maior, nao enquanto especie humanas, nao como humanos, mas como autoconsciencias. E’ na dimensao destas que estao existindo genitores que abandonan e ovos que sao abandonados. 

Os judeus nas camaras esperando o gaz da morte. O povo de Berlim vendo os canhoes russos chegando para a desforra do que fizeram em Stalingrado. O paciente recebendo a confirmacao de cancer e apenas mais alguns dias de vida… O torturado horrivelmente na cela fria sabendo que o dia esta’ clareando e vai iniciar nova sessao da aterrante tortura… Todos de repente se lembram da forca… e procuram-na.

A forca falta no momento H, aquela em quem acreditamos a vida toda, que esta’ em nossa natureza acreditar, nao temos como evitar a crenca nesta forca, a forca do “proposito”. Do “sentido”. Da “existencia do maior”, revelada pela existencia eterna do menor. Apenas naquela hora na arena, naquela hora na camara de gaz, naquela hora no leito do hospital, e apenas aquelas pessoas que enfrentaram a situacao, e apenas no ultimo momento de sentir o halito e o horror da tremenda bocarra do leao a 5 centimetors, e mais, apenas no instante que sente-se a pressao e dilaceramento da carne e’ que se convence finalmente que a forca nao existe, nunca existiu, e que nao eramos nada. Totalmente nulos e abaondonados como qualquer pedra inutil  no caminho. 

Nao tem como negar que a mamae cobra ou a mamae barata bota os ovos em qualquer lugar por onde passa e nunca mais volta para eles. Nao tem como negar que o baby besouro pode se deparar com uma bocarra de aranha aberta assim que ele rompe a casca do ovo e ia botar a cabeca para fora. Entao porque nasceu? Para que foi feito? Mas fechamos os olhos e passamos por cima disto com a intencao de nao ver a ausencia do proposito, ou, quando muito, se nao conseguimos evitar um rapido pensamento, deixamos a questao morrer perante a sombra de uma ideia, a de que os insetos nao estao dentro da hierarquia onde funciona o proposito e o racional.

Mas tudo muda em relacao `a mente.  Jamais vai nos passar pela cachola que uma mente tambem vive fora da hierarquia do proposito como as baratas e as lagartixas. Que uma consciencia seja mera larva dentro de um casulo abandonado ao sabor do vento… e das forcas brutas que se movem no mundo. Inconcebivel! Estamos cansados de presenciar eventos que afirmam isto, mas vamos chegar ate’ o ultimo instante da vida sem ver isto com os olhos de ver. Crenca e olhos fechados sao a mesma coisa.

Nao podemos conceber que a mente humana seja prole abandonada ao acaso, nem mesmo dentro da visao mais abrangente e conscientte da Matriz, porque “sabemos” que a mente humana e’ a reproducao genetica de uma mente superior muito maior e existente alem do Universo,  ex-machine. Porque aprendemos que seres inteligentes tem amor a suas proles. Portanto, enquanto nao chegar o ultimo instante da vida, nao vamos aceitar que a mae e o pai da nossa consciencia estao ausentes, nos abandonou desde quando nosso ovo surgiu, fecundado.

Mas existe a morte das mentes, existe a tragedia para as mentes, os humanos quando torturados sentem a dor maior porque quem sente a dor e’ a consciencia. A evidencia nao deixa margem a contestacoes: a mente nao tem proposito, pois esta’ ausente e nao existe aqui uma forca de algum proposito. Nao ha’ duvidas: seis bilhoes de cerebros, seis bilhoes de ovos despejados ao leu.  

Mas desta historia o que nos fascina e’ a teimosia da Natureza em repetir e confirmar incansavelemnte o mesmo roteiro, o mesmo ciclo, seja aplicado a quem for, ate’ mesmo a auto-consciencia: todo novo sistema natural, topo da evolucao, vai passar por duas fases, a fase dos ovos botados fora, e a fase dos ovos mantidos dentro.

Por isso nos acontecem as tragedias. Por isso as forcas brutas sempre afirmam sua existencia e sempre fazem o que estao ai para fazer: a nossa destruicao ate’ a morte.

E outra coisa que esta constatacao nos leva atonitos a raciocinar: se como auto-consciencias, estamos no primeiro nivel, na forma dos ovos fora, entao vira’ a forma dos ovos dentro! O que sera’, como sera’, a forma dos ovos dentro?! 

Mas isto tudo, ao inves de me decepcionar e fazer tambem abandonar os remos deixando a vida ao leu, me surte o efeito contrario: levantar, manter-se de pe, conclamar cada porcao de consciencia como a que sou, apelar ao seu entendimento, o de que devemos abondonar de uma vez por todas a sensacao do proposito existente, e criar-mos, nos sim, o proposito. Pois existe uma novidade com as auto-conciencias que nao existiram para repteis e mosquitos. Os recem-nascidos destes nao podiam se defenderem da aranha que esperava ao lado do ovo, muito menos os embrioes dentro dos ovos podiam tomar alguma providencia la’ fora para proteger os ovos. Mas a mente humana pode! Pois nao sei explicar como, mas ela consegue ter consciencia do que existe la’ fora nas imediacoes do ovo, e pode inclusive mover tentaculos que cresceram conectados ao ovo, e com eles podem mudar o mundo fora, com isso significando que podem criar situacoes para evitar a maioria dos tipos de tragedias. E’ nisso que devemos nos apegar daqui para a frente… 

Mas entao o que vamos fazer por exemplo, para nao mais existirem leoes comendo alguns de nos? Podemos faze-lo: eliminar todos os leoes. Tudo o que possa tornar-se inimigo do ser humano, tudo o que possa causar a menor dor ao ser humano tem que ser eliminado, e nao me venham os defensores de leoes, se os querem, que os levem para suas casas. Mas ai teriamos que eliminar os neros da vida, e isto e’ o pior, digo, ver-mos que dentro de nos,  e dentre nos, tambem existem nossos inimigos. Nao adianta apenas eliminar os leoes, e deixar os neros vivos, pois eles usarao outras coisas no lugar de leoes para nos agredir. Ai’ caimos novamente naquela questao: o mal cai sobre nos porque o mal esta’ dentro de nos? Bem, seja como for, se estiver vamos ter que extirpa-lo de nos.  Mas mesmo que o mal tambem esteja dentro de nos, isso nao impede que continue a afirmacao, baseadas em infinitas evidencias, de que estamos abandonados. Ou voce, como pai, ou mae, se tivesse um filho ruim, deixaria o horror cair sobre ele se pudesse evita-lo? Creio que nao. Porque voce e’ auto-consciente, e isto implica no amor paternal e maternal. Mas sobre nos, enquanto auto-consciencia, o horror cai sobre nos. O que significa, inquestionavelmente, que somos rebentos dentro de ovos abandonados.